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» Deus é o Pai do Irr...
O Conceito-deus
Salão de convenções de um grande, caríssimo e luxuosíssimo Hotel.
Um cientista termina sua palestra. Resultado da pesquisa feita na plateia:
50% Acreditam
50% Não acreditam
Um pastor inflamado termina sua palestra. Resultado da pesquisa feita na plateia:
90% Acreditam
10% Não acreditam
Um ex-pastor ateu ultra inflamado termina sua palestra. Resultado da pesquisa feita na platéia:
1% Acreditam
99% Não acreditam
Conclusão Geral: E daí? Que diferença faz?
O tema “deus” parece que de alguma forma, consegue excitar sexualmente o ser humano. Os que acreditam em sua divina existência, não escondem os verdadeiros orgasmos múltiplos que sentem em anunciar a sua fé ou crença.
Por outro lado o entusiasmo com que os ateus, fervorosa e apaixonadamente, defendem a sua crença na não existência de deus, igualmente denota, uma certa compensação prazerosa de carácter sexual.
Tem muita mosca neste mel. Mas o problema é que você não consegue ver o mel, mas onde tem muita mosca, e você não consegue ver o mel, é porque, no mínimo, tem alguma coisa muito doce por ali. Alguma coisa que as moscas doceiras, simplesmente não conseguem resistir.
Com todo o respeito, o máximo que eu estou conseguindo ver nessa coisa toda, é que, na verdade, o “conceito-deus” se faz absolutamente necessário, tanto para teístas quanto para ateístas, e, cada qual ao seu modo e com seu modo próprio de voar, gravita como cupins ao redor deste conceito, chamado “deus”; uns no sentido horário, outros no sentido anti-horário, mas o “conceito-deus” está lá, à flor dos nervos, das paixões e da pele.
Tal é o medo e a dúvida dos crentes com relação à existência de deus, que os mesmos têm de repetir para si mesmos, a cada 5 minutos a expressão “deus existe”, “deus existe”, “deus existe”.
Do mesmo modo, os ateus, tal é a seu medo e dúvida sobre se de facto deus realmente “inexiste”, que têm de repetir para si mesmos, a cada 5 minutos a expressão “deus não existe”, “deus não existe”, “deus não existe”.
Bem, já que, pelo jeito, a polêmica é puramente existencial, e nela apostamos praticamente todas as nossas fraldas descartáveis, chupetas e chocalhos. Quero trazer a esta douta mesa de discussões, uma imensa dúvida que também carrego dentro do peito, sobre cuja existência, (tal e qual a existência de deus) eu gostaria de ter a mínima certeza, e, sem a qual, acho que não poderia viver por nem mais um segundo sequer, sem tentar, digamos, o suicídio. A dúvida é a seguinte: O Buraco existe ou não existe?
Admitindo que o buraco exista, sou forçosamente obrigado a admitir a existência de algo que não existe. Admitindo que o buraco não exista, me vejo no conflito de ter que negar à própria essência do buraco, ou seja; a de existir como uma descontinuidade em algo mensurável.
Os ateus dizem que o buraco não existe porque olham para o que está dentro do buraco e não vêem nenhuma evidência de que algo esteja ali e exista.
Os crentes olham para os limites do buraco e dizem que o buraco revela a existência do fenómeno que deu origem ao buraco e o chamam orgulhosamente de deus.
Mas os ateístas contra-atacam dizendo que o buraco é, nada mais, nada menos, que a descontinuidade que já havia antes mesmo que existisse qualquer buraco.
E agora, a discussão passa a ser a seguinte: o que existiu primeiro; o buraco, ou a essência, cuja descontinuidade revelou sua existência?
Os mais optimistas aí teriam alguma noção de quando esta discussão sobre a existência de deus vai chegar a alguma conclusão definitiva? Se o próprio deus (ou os criadores de sua mais nova versão) é quem se auto classifica como sendo tudo e nada ao mesmo tempo? Como sendo pessoal e como sendo mero somatório de fenómenos impessoais que seguem as leis da gravidade e do electromagnetismo? Como sendo real e imaginário ao mesmo tempo?
Confesso que, no meio dessa discussão toda, os ateus se encontram em posição mais vantajosa, porque se formos admitir a existência deus, seremos forçosamente obrigados a dar-lhe uma versão formal, dotar-lhe de uma certa personalidade, dizer como será o seu céu e como será o seu inferno, ou se não terá céu ou inferno e sim um sistema de punições temporárias, como por exemplo, a reencarnação, purgatório, karma, ou algum outro sistema, de preferência compreensível e... – já ia me esquecendo –, intimidante.
Esse é justamente o maior problema de quem admite a existência de, “Deus”: dar-lhe corpo, forma, personalidade e pensamento, de tal forma que pareça o mais real, palpável, compreensivo e o mais CONVINCENTE possível. O grande problema para os crentes é acertar e descrever, de uma tacada só, a única, “Grande Realidade”, num universo de possibilidades mais infinitas e criativas que a própria mente humana. Seria mais ou menos como pegar, repetidas vezes, sempre na primeira tentativa, a chave que você nunca viu; que abre a fechadura, que também você nunca viu, de mais um novo apartamento que você acaba de ganhar; misturada no meio de biliões e biliões de outras chaves. Mesmo que você prodigiosamente consiga isto na primeira vez, com certeza, você não conseguirá SEMPRE, e aí, meu caro amigo crente, quando você falhar em descrever o deus que você quer impor às outras pessoas; essas mesmas pessoas começarão a perceber que você, para falar da existência de “Deus”, estará usando, no mínimo, nada mais nada menos que a sua própria e fértil imaginação humana. E você corre o sério risco de, doravante, ser visto como um charlatão, senão por todos, pelo menos, pelos mais sinceros e mais atentos. Se isso não lhe causa qualquer mal-estar, nem azia, nem má digestão, siga em frente...
Já os ateus, me parecem ser os mais maduros, mais sensatos e, por incrível que pareça, os mais humildes e conscientes de sua condição humana. Evidentemente existem ainda os ateus “recém-convertidos” e entusiastas que simplesmente mudaram de lado, mas ainda não mudaram de atitude e querem, a todo custo, provar a, “inexistência de deus”; mas existem também os mais amadurecidos que finalmente entenderam que a essência do verdadeiro ateísmo, não é conseguir finalmente provar ao mundo inteiro que deus não existe cruzando os braços e balançando o queixo; não é mais aquela eterna discussão entre genro e sogra, que não leva a lugar nenhum e atrapalha muito a caminhada de quem quer verdadeiramente, acima de tudo, simplesmente crescer. Para mim, no meu humilde entendimento, o verdadeiro ateu é aquele que finalmente, muito além da simples “existência”, conseguiu desenvencilhar-se do próprio “conceito-deus”, como quem consegue libertar-se da teia de uma viúva-negra, e procura, agora, crescer sozinho através de sua própria consciência. Se deus existe ou se não existe, isso não mais importa, porque agora, isso passou a ser um problema existencial que compete única e exclusivamente ao próprio deus resolver. Já é demais para mim, tentar resolver os dramas de minha própria existência. E aí, passo a ser ateu, não porque acredite ou desacredite na, “inexistência” ou “existência” de deus; mas finalmente sou ateu porque me livrei do mais terrível fantasma: o fantasma do próprio deus.
Se deus existe e quer me ajudar, ou se não se agrada de mim e quer me atrapalhar, ou se quer me ensinar, me provar ou me matar; se me ama ou se me odeia, ou mesmo se é indiferente; se é meu criador ou não, se é o Supremo Arquitecto do Universo, ou O Supremo Demolidor do Universo, ou se é um cachorro latindo ou dormindo, se vou para o céu, para o inferno, para o purgatório, para o duat; se vou reencarnar ou não, se o universo existe por si só ou se foi obra da criação, se o Diabo existe ou se não existe, bem como as doenças, as divergências, a pobreza, a ganância e a fome; ou ainda, se deus de facto não existe e eu sou um menor abandonado... Para mim chega! Chega! Chega dessa conversa mole! Que não resolve nada e que não leva a lugar algum! Eu, sozinho e absolutamente solitário, chamo a mim, neste momento, toda a responsabilidade do universo inteiro e vou tentar sozinho, sem contar ou sem pedir a ajuda de ninguém, a solução de todos os problemas que estiverem na minha frente e que me impedem de crescer como ser humano, bem como, de ver meus semelhantes crescerem como eu.
E exactamente neste ponto que acontece o mais incrível de todos os paradoxos, e somente quem passou por ele é que sabe do que estou falando. O paradoxo é o seguinte: “Somente quando você compreende, com a devida humildade, todas as suas limitações é que você finalmente perde o medo e parte para o impossível. O verdadeiramente impossível é reconhecermos nossas limitações e livrarmos nossa imaginação de todos os nossos “Super-Heróis” que diariamente nos ajudam a, “passar por cima” dos terríveis problemas e resolvermos andar passo a passo, sem extrapolar, sem cogitar, sem queimar etapas, sem devaneios. Uma vez conquistado este impossível, então nada mais será impossível.
De que me adianta acreditar em deus se, toda vez que quero percebê-lo tenho de usar essa droga alucinógena chamada “fé imaginária”!?
Quero aproveitar o momento para deixar claro que considero a existência de, pelo menos, dois tipos de fé: a “estática adorativa” e a “dinâmica determinante”: O primeiro tipo é aquela em que você simplesmente espera que algum “Super-Homem” faça por você. O segundo tipo é aquela em que você estabelece um alvo e o persegue insistentemente por uma única razão: você vai conseguir atingi-lo. Particularmente eu prefiro o segundo tipo. Prefiro mil vezes contar com minhas fraquezas, limitações, dores e incompreensões que me possibilitam, quando muito, arrastar-me lentamente, do que contar com super poderes imaginários que até me fariam voar.
Vou chegar ao infinito, mas porque ousei arrastar-me lentamente por cada milímetro de todo o caminho do universo do conhecimento. Quem vai rápido demais não conhece tão bem o caminho como quem o percorre palmo a palmo. Minha paciência, na verdade, é o que sempre me colocará na frente.
Você pode ir do Rio à São Paulo, de avião, umas duas mil vezes enquanto eu vou uma única vez a pé. Mas se quiser realmente conhecer o caminho, fatalmente só terá como começar bem depois de mim, daqui a alguns milhões de anos, depois de humilhar-se e reconhecer tal necessidade, andando tão lentamente como eu, porque fui eu quem primeiro começou a palmilhá-lo na condição de humano, limitado, solitário e sem quaisquer tipos de super poderes.
Que bem me lembre, nunca andei por cima das águas, nunca curei um enfermo, nunca consegui beber um bom e caríssimo vinho transformando-o da água, nunca consegui ler o pensamento de ninguém, nunca consegui multiplicar pães ou peixes, nunca consegui voar, não venho do planeta Kripton, não tenho visão de Raios-X, não sou imune a balas de revolver, não consigo levantar locomotivas, nem transportar os montes; nunca consegui isentar-me dos impostos ou pagá-los com moedinhas achadas na boca dos peixes, nunca consegui ser imune às doenças e, se morrer, é pouquíssimo provável que eu ressuscite ao terceiro dia. Então, segue-se que, se deus existe, ele poderá até me ver, mas somente depois que, como eu, também cruzar a faixa de chegada e, com certeza estarei lá para cumprimentá-lo por seu brilhante segundo lugar.
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