O poder dos sobas Kibalas
Um Governo tradicional respeitado
A Kibala ( Quibala), na província do Kuanza-Sul, representa uma das nossas tradiçõesmais rígidas e rigorosamente organizadas. Povo bravo, acutilante e resistente, vive organizado em grandes sanzalas ou territórios autónomos, dirigidas por reputados sobas. As mbanzas (sanzalas grandes) são capitais de inúmeras aldeias sob poder político-administrativo de sobetas.
A organização do poder político dos Kibalas despertou atenção e interesse dos ocidentais e tal foi a força com que então os portugueses penetraram na região para impor um outro modelo de organização social.
O Governo da mbanza, dirigido pelo soba grande, integra o Ñgana Palanga (espécie de ministro da defesa), Ñgana Thandela ( ministro da justiça), Ñgana Ngolombole ( intérprete dos sonhos do soba e substituto imediato em caso de qualquer eventualidade).O Ñgana Kyilyokamba é o logístico e chefe protocolar do Governo.
Uma das tarefas mais espinhosas cabe ao Ñgana Ngolombe. Este, tem a missão de analisar e dar conclusões possíveis aos sonhos do soba e prever acontecimentos futuros, no interior da área de sua jurisdição.
O soba é o homem mais forte e todo poderoso da mbanza, juridicamente aconselhado pelo Ñgana Thandela ( ministro da defesa) e pelo Ñgana Kichokota ( procurador geral). O seu poder é vitalício. Na sua morte, cumpre-se um ano de luto, findo o qual, o concelho de anciãos reúne-se para escolher o outro soba. O novo chefe, é-lhe colocado um barrete de pele de Onça à cabeça. É o símbolo de nobreza, servindo a mesma pele para notificar pessoas queixadas ao soba.
Ainda na cerimónia que lhe confere dignidade, o soba recebe uma zagaia e uma flecha, que não é apenas uma arma para defesa pessoal, mas também um símbolo de bravura e combatividade.
As festividades de investidura são muito prolongadas. O novo líder é obrigado a organizar uma festa, na qual é abatida uma vaca e consumida grande quantidade de bebidas alcoólicas.
Todas estas formalidades, no entanto, não podem ser cumpridas sem a observância do ritual principal: a passagem sobre a sepultura do antecessor.
O novo soba tem ainda de dar provas de virilidade. Durante vinte noites dorme no mesmo leito com uma donzela ( uma mulher nova), descendente de escravos, sem tocá-la. A manutenção da abstinência é rigorosamente seguida por guarda-costas do soba eleito.
Na data da sua entronização, constrói-se um alpendre, uma espécie de um palco, com cerca de 50 cm de altura, coberta de esteiras. Aqui, com a rapariga, na presença dos anciãos, familiares de ambos e povo em geral, mostra o seu vigor sexual. Depois do acto, deve mostrar o seu líquido seminal a todos os velhos e demais presentes, para depois ser misturado com bebida a ser consumida pelo povo presente.
O primeiro soba kibala estabeleceu-se na mbanza de Kitumbi, sendo por isso considerada a mais antiga da região.
É a partir daqui que este povo, originário de Pungo-Andongo se espalhou pelo actual território que constitui o município de Kibala.
Doença e falecimento do soba.
Para os kibalas a doença e a morte nunca têm uma causa natural. Procuram sempre investigar as suas causas. Fazem-no por razões de prevenção ou de vingança.
A doença terminal de um soba grande é rodeada de muitos mistérios. O todo poderoso não pode acabar de morrer como mandam as leis da natureza. Há sempre uma intervenção de alguém. Logo que se verificar a gravidade da sua doença, os mais velhos da sanzala reúnem-se e convidam homens corajosos, credenciados, pela tradição, para acabar com a vida dos sobas.
Como manda a tradição local, se não o fizerem, toada a área sob jurisdição passará por dificuldades várias: fome, pestes, etc…Por isso, quando o soba se encontrar próximo da morte, os tais homens de coragem, os “kessongos” são chamados para realizarem a operação.
Os “kessongos entram no quarto do soba doente, correm com a família e torcem-no até à morte. Depois disso, extraem dele os órgãos sexuais e os intestinos, para serem enterrados à parte, numa pequena sepultura chamada “lombe”. Esta área deve ser muito respeitada. Cada soba que ascende ao poder não deve circular livre e à vontade nela. Caso contrário, acontece-lhe algo estranho na vida.
Depois disso, o corpo é embalsamado com óleo de palma fervido, para evitar putrefacção e cheiro durante o tempo de permanência na sanzala. Não se chora sem autorização de homens tradicionalmente preparados.
Durante os dias de óbito do soba, tudo o que desaparecer da sanzala, seja de que valor for, não se reivindica. Tudo vai em nome do malogrado e, daí, mo maior cuida do com os ladrões.
(compilado a partir de “os kibalas de Gabriel Vinte e Cinco”)
Fonte: Jornal Angolense
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